Levantamento de alvarás mostra avanço dos serviços e da tecnologia, enquanto a participação do comércio varejista recuou entre 2016 e 2026

Rodolfo Luis Kowalski / Bem Parana

Base de Alvarás da Prefeitura de Curitiba revela como o perfil de negócios no Centro de Curitiba se transformou nos últimos 10 anos (Foto: Franklin de Freitas)

O Centro de Curitiba passou por uma importante transformação ao longo dos últimos dez anos. Entre 2016 e 2026, revelam dados da Prefeitura de Curitiba, o número de alvarás de funcionamento registrados no bairro cresceu de maneira expressiva. Mais do que isso, porém, o perfil das atividades econômicas também mudou. Enquanto o comércio tradicional perdeu espaço, outros segmentos ascenderam e ganharam protagonismo. Entre eles estão os serviços especializados, com destaque para as atividades jurídicas, administrativas e de tecnologia.

O levantamento, feito pelo Bem Paraná por meio da Base de Alvarás disponibilizada pela Secretaria Municipal de Finanças, revela, primeiramente, que cada vez mais negócios estão ocupando a região central da Capital. Em outubro de 2016, eram 36.595 alvarás no bairro. Já em outubro deste ano, o número subiu para 47.384. Uma alta de 29,5%, portanto, com o ganho de quase 11 mil alvarás em dez anos. Importante destacar que esse número, contudo, não significa necessariamente que a região ganhou o mesmo número de lojas ou estabelecimentos físicos.

Essa expansão, entretanto, não ocorreu de maneira uniforme entre os diferentes setores. E um dos principais indicativos da mudança no perfil econômico do Centro está justamente na evolução da participação do comércio e dos serviços no conjunto de alvarás registrados no bairro.

Em 2016, 6.634 alvarás no Centro diziam respeito ao comércio varejista. Em 2026, já são 6.756, um avanço de 1,8%. Há dez anos, no entanto, o setor respondia por 18% dos alvarás no Centro; hoje, fica com 14,2% – ou seja, perdeu 3,8 pontos porcentuais de participação.

O setor de serviços, por sua vez, avançou de forma expressiva. Há dez anos, eram 24.625 alvarás; hoje, são 34.805, um crescimento de 41,3%. Com isso, a participação dos serviços no total de alvarás do Centro passou de 66,9% para 73,3%. Um avanço que se faz notar ainda pelo ranking de atividades dos negócios no Centro de Curitiba.

Lojas de roupas perdem liderança pros advogados

Há dez anos, o comércio de vestuário era a atividade mais comum no Centro de Curitiba, com 1.691 alvarás. Na sequência apareciam cabeleireiros (1.414), médicos (942), serviços advocatícios (865) e restaurantes (808). Além disso, lanchonetes (719), consultoria em gestão (622), dentistas (595), manicures (535) e serviços de escritório (465) também apareciam com destaque.

Já neste ano, o cenário mudou de forma importante. Primeiro, as lojas de roupas não estão mais na liderança do ranking. Esse posto agora pertence aos negócios de serviços advocatícios, que praticamente dobraram em número: 1.729. O comércio de vestuário, por sua vez, caiu para a segunda posição, com 1.628 alvarás (63 a menos do que 10 anos atrás). Em seguida, os cabeleireiros, com 1.414 alvarás – exatamente o mesmo número registrado em 2016, curiosamente.

O setor da tecnologia, no entanto, merece um destaque à parte. Isso porque duas atividades que estavam fora das 90 mais comuns em 2016 passaram a figurar entre as dez primeiras em 2026.

A consultoria em TI, por exemplo, ocupava em 2016 o 94º lugar no ranking de atividades. Hoje, a atividade ocupa a sexta posição: de 84 alvarás, passou-se para 929, um crescimento impressionante de 1.006%.

Da mesma forma, os alvarás para negócios envolvidos com o desenvolvimento de software também dispararam. Havia 82 registros há 10 anos, em 96º lugar. Hoje, já são 790. Um crescimento de 863% que fez a atividade saltar para o 10º lugar.

Finalmente, temos ainda a expansão dos serviços de escritório e apoio administrativo. Eles passaram de 465 para 1.373 alvarás, crescimento de 195,3%, saltando da décima para a quarta posição. É um avanço ainda maior, em números absolutos, que o dos serviços advocatícios.

Mais da metade dos alvarás de 2016 permanece nos registros atuais

Apesar das transformações no perfil econômico do Centro de Curitiba, uma parcela expressiva dos negócios registrados na região há dez anos continua aparecendo nas bases municipais. Dos 36.595 alvarás identificados em outubro de 2016, 20.241 também constam na relação de outubro de 2026. Isso significa que 55,3% dos registros de uma década atrás ainda aparecem no levantamento mais recente.

Para identificar a continuidade dos negócios, o Bem Paraná cruzou não apenas os números dos alvarás, mas também os nomes empresariais e os endereços informados nas duas bases. O resultado revelou que 19.003 registros apresentam coincidência nos três critérios, o equivalente a 51,9% dos alvarás de 2016.

Os dados indicam, portanto, uma expressiva permanência cadastral de atividades econômicas no bairro, mesmo diante das mudanças observadas ao longo da década. Isso não significa, necessariamente, que todos esses estabelecimentos tenham funcionado ininterruptamente durante os dez anos, mas demonstra que mais da metade dos registros antigos apresenta correspondência com aqueles encontrados atualmente.

As taxas de permanência cadastral, contudo, variam significativamente entre as diferentes atividades econômicas ou registros de profissionais autônomos. Entre aquelas que tinham pelo menos 100 alvarás em 2016, os maiores percentuais de correspondência foram registrados entre pesquisadores de mercado (90,6%), manicures (90,3%), digitadores (90,1%), artesãos (89,7%) e pedreiros (89,3%). Também se destacaram cabeleireiros (89%), garçons (88,9%), costureiros (86,8%) e motoristas de táxi (86,3%).

Na outra ponta, as menores taxas de correspondência foram identificadas entre atividades de suporte técnico de TI (23,1%), estética e cuidados de beleza (27,3%), atendimento médico ambulatorial (29%), treinamento profissional e gerencial (29,9%), estacionamentos de veículos (30,5%), serviços combinados de escritório (31,8%) e holdings não financeiras (32,5%).

Os resultados mostram que a transformação econômica do Centro também foi acompanhada por diferentes graus de renovação cadastral entre as atividades. É o caso dos serviços combinados de escritório, que quase triplicaram em número de alvarás, embora menos de um terço dos registros identificados em 2016 apresente correspondência em 2026. As taxas, contudo, não devem ser interpretadas como indicadores de sobrevivência empresarial, já que não comprovam o funcionamento ininterrupto dos negócios ao longo da década.

Rodolfo Luis Kowalski

Jornalista do Bem Paraná/Jornal do Estado desde 2011.

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