Para pesquisador da USP, sem mudanças na renda e sem investimento em saúde mental, profissionais podem trocar a exaustão do emprego pela exaustão dos “bicos”

Entre os profissionais que trabalham na escala 6×1, 100% relataram algum nível de esgotamento, sem nenhum caso de baixo desgaste emocional (Malte Mueller/Getty Images)

Layane Serrano / Repórter  EXAME

A discussão sobre o fim da escala 6×1 ganhou força no Congresso com a proposta de reduzir a jornada de trabalho e ampliar o tempo de descanso dos brasileiros. A proposta segue em análise no Senado, mas um novo estudo indica que essa mudança, sozinha, pode não ser suficiente para melhorar a qualidade de vida dos trabalhadores.

A pesquisa “Saúde Mental, Modelos de Jornada Laboral e o Paradoxo da Renda Complementar”, desenvolvida dentro do Centro de Inovação da USP, mostra que 33% dos profissionais pretendem usar o tempo livre conquistado com uma eventual redução da jornada para buscar uma renda complementar nos próximos cinco anos.

Em vez de descansar, parte dos trabalhadores afirma que pretende ocupar esse período com atividades da chamada gig economy (como trabalhos por aplicativo, prestação de serviços ou pequenos negócios).

O levantamento, realizado com mais de 200 profissionais em cargos de liderança, foi liderada por Sergio AmadCEO da Fiter, pesquisador do Centro de Inovação da USP e diretor de inovação da ABRH-SP. Segundo o pesquisador, o país corre o risco de substituir um problema por outro.

“Se a redução da jornada servir apenas para abrir espaço para que o trabalhador monetize suas horas livres, o benefício fisiológico dessa mudança será anulado. Em vez de sair da exaustão institucional, ele entrará em uma exaustão autônoma”, afirma.

Segundo ele, esse fenômeno foi batizado pela equipe de pesquisa como “incongruência da falsa flexibilidade”.

“Você cria uma jornada menor, mas não cria condições para que as pessoas realmente descansem. O tempo livre acaba sendo convertido em mais trabalho por necessidade financeira”, diz.

Sergio Amad, CEO da Fiter e pesquisador do Centro de Inovação da USP: “Estamos diante de uma fuga de talentos” (Arquivo pessoal/Divulgação)

Como a pesquisa foi feita

O estudo foi desenvolvido pela deep tech Fiter dentro do Centro de Inovação da USP e ouviu 211 profissionais em cargos de liderança de setores como varejo, indústria e saúde. A maior parte das respostas foi coletada de forma online, com uma parcela aplicada presencialmente no laboratório da universidade.

Segundo Sergio Amad, a pesquisa foi construída a partir da metodologia Problem Solution Fit (PSF).

“Existe um instrumento técnico que a gente utiliza chamado Problem Solution Fit. A gente analisa um problema real e observa quais métricas causam impacto nele e como elas se comportam em curvas de tendência,” diz.

Para elaborar o questionário, os pesquisadores recorreram a referências nacionais e internacionais sobre saúde mental e bem-estar, como a Felicidade Interna Bruta (FIB), criada pelo Butão, o guia da NR-1 sobre riscos psicossociais, o Manual de Saúde Mental no Trabalho e estudos de neurociência e psicometria.

Após a coleta das respostas, os dados passaram por análises de ciência de dados e inteligência artificial para identificar padrões e correlações entre jornada de trabalho, saúde mental e perspectivas de carreira.

“As evidências entram em uma base de dados e, com apoio da inteligência artificial, fazemos análises de correlação e de causa e efeito. Depois, um comitê técnico analisa os resultados e elabora o relatório final.”

O custo oculto da escala 6×1

Embora o debate político esteja concentrado nos impactos econômicos da mudança para empresas, o estudo procurou avaliar seus efeitos sobre indicadores de saúde mental.

Os resultados mostram um cenário preocupante:

  • 43% dos entrevistados afirmam sentir-se esgotados sempre ou na maior parte do tempo;
  • 45% dizem que raramente conseguem dormir bem;
  • Entre os profissionais que trabalham na escala 6×1100% relataram algum nível de esgotamento, sem nenhum caso de baixo desgaste emocional.

Para Amad, a escala rígida interfere diretamente na recuperação física e mental.

“Do ponto de vista biológico, existe um consenso científico de que modelos como o 5×2 oferecem melhores indicadores de bem-estar, qualidade do sono, convivência familiar e redução do estresse”, afirma.

Ao mesmo tempo, ele pondera que a transição precisa considerar a realidade de setores como varejo, saúde e supermercados, que já enfrentam escassez de mão de obra.

“O ideal seria uma implementação gradual, acompanhada de incentivos que permitam às empresas contratar mais profissionais sem ampliar excessivamente seus custos”, diz.

O empreendedorismo virou uma rota de fuga

Um dos dados que mais chamou a atenção dos pesquisadores foi o desejo de abandonar o emprego tradicional para migrar para o empreendedorismo como alternativa para conquistar mais autonomia, qualidade de vida e preservar a saúde mental.

Dos entrevistados:

  • 59% pretendem empreender nos próximos cinco anos;
  • Apenas 8% imaginam permanecer exclusivamente no modelo CLT no longo prazo.

Para Amad, o dado não representa apenas uma busca por independência financeira.

“Quando olhamos os cruzamentos estatísticos, percebemos que o empreendedorismo aparece muito mais como uma tentativa de recuperar autonomia sobre a própria vida do que apenas ganhar mais dinheiro”, afirma. “Estamos diante de uma nova fuga de talentos”.

Segundo ele, fatores como perda do poder de compra, endividamento e falta de tempo para a família ajudam a explicar esse movimento.

“A pesquisa mostra um alerta para as empresas. Não estamos discutindo apenas o formato da jornada. Estamos diante de uma possível fuga de talentos do mercado formal.”

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Mulheres querem usar o tempo livre para cuidar da família – e de si mesmas

A pesquisa também identificou diferenças importantes entre homens e mulheres.

Como 58% da amostra é composta pelo público feminino, o estudo aponta uma forte tendência de utilizar o tempo livre para convivência familiar e autocuidado.

Segundo Amad, esse resultado evidencia o peso da dupla jornada.

“As mulheres demonstram um desejo muito maior de investir esse tempo em convivência familiar e autocuidado. Isso mostra que elas ainda carregam boa parte das responsabilidades invisíveis dentro de casa”, afirma.

Além disso, 32% dos entrevistados afirmaram que gostariam de praticar atividades físicas regularmente, mas não conseguem manter essa rotina.

Burnout pode continuar crescendo

Na avaliação do pesquisador, a simples redução da jornada não resolverá o problema do burnout caso as condições econômicas permaneçam as mesmas.

“O trabalhador pode deixar um emprego de 6 dias para trabalhar em dois aplicativos, vender produtos ou abrir um pequeno negócio. O cérebro continua sob pressão constante”, afirma.

Ele relaciona esse comportamento ao aumento dos transtornos mentais observado no país nos últimos anos.

“O Brasil vive uma combinação de fatores: endividamento, excesso de tempo em telas, ansiedade, jornadas extensas e insegurança financeira. Tudo isso cria uma rota muito favorável ao adoecimento psicológico”, diz.

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O debate precisa ir além da jornada

Para Amad, o país precisa ampliar a discussão sobre o fim da escala 6×1.

Em vez de tratar o tema apenas como uma disputa entre custos para as empresas e benefícios sociais, ele defende que a saúde biológica do trabalhador entre definitivamente na equação.

“O debate precisa incorporar a viabilidade biológica. Não basta reduzir horas de trabalho. É preciso criar condições para que as pessoas realmente consigam descansar, praticar atividade física, conviver com a família e recuperar seus recursos físicos e emocionais.”

A discussão sobre o fim da escala 6×1, segundo Amad, também precisa considerar os impactos econômicos da mudança. Para ele, uma transição para jornadas menores deveria ser acompanhada por medidas do governo, como redução da carga tributária sobre a folha de pagamento e incentivos para contratação de novos profissionais. Para o pesquisador, isso permitiria ampliar o descanso dos trabalhadores sem aumentar os custos das empresas e nem agravar a falta de mão de obra em setores como varejo e saúde.

Caso contrário, o país corre o risco de resolver um problema e criar outro, segundo Amad.

“Se o trabalhador continuar usando o tempo livre para sobreviver financeiramente, continuaremos alimentando o mesmo ciclo de burnout, apenas com outra configuração.”

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