Por Fernando de Jesus, especial para a Gazeta do Povo

 

O comércio de rua está sendo pressionado por uma mudança estrutural no comportamento do consumidor. Em cinco anos, o faturamento do comércio eletrônico brasileiro cresceu 86,3%, enquanto manter uma loja física ficou mais caro e o orçamento das famílias passou a ser pressionado pelo endividamento.

Entre 2020 e 2025, o faturamento do e-commerce brasileiro passou de R$ 126,45 bilhões para R$ 235,52 bilhões, segundo dados da Associação Brasileira de Inteligência Artificial e E-commerce (ABIACOMM).

O crescimento não representa apenas uma mudança temporária provocada pelas mudanças de hábito decorrentes da pandemia. Na avaliação de Fernando Balotim, economista e especialista em reconstrução de empresas, o varejo físico está diante de uma transformação estrutural na forma como os consumidores pesquisam e compram.

“A pandemia acelerou uma transformação que já vinha ocorrendo no varejo. O consumidor deixou de depender do deslocamento até a loja porque encontrou conveniência no comércio eletrônico”, afirma.

Esse movimento ganhou ainda mais força com a expansão de grandes marketplaces, como Mercado Livre e Amazon, e de plataformas internacionais, como Shein e AliExpress, que ampliaram a oferta de produtos a preços competitivos e intensificaram a concorrência especialmente em segmentos como vestuário, eletrônicos, itens domésticos e acessórios.

Para o economista, a competição baseada apenas em preço e variedade tornou-se cada vez mais difícil para o comércio de rua diante das grandes plataformas digitais, que operam com maior escala e eficiência logística.

“As lojas que permanecerem competitivas serão aquelas capazes de integrar o ambiente físico ao digital, oferecendo conveniência, relacionamento e experiências que a internet não consegue reproduzir”, diz Balotim.

A transformação também aparece em levantamentos sobre o comportamento dos consumidores. Pesquisas da Fecomércio-PR realizadas para o Dia das Mães e o Dia dos Namorados mostram que o comércio de rua perdeu participação nas intenções de compra entre 2025 e 2026, enquanto as compras pela internet ganharam espaço.

No Dia dos Namorados, a intenção de comprar pela internet aumentou de 29,6% para 35%, enquanto o comércio de rua, considerando lojas do centro e dos bairros, recuou de 33,6% para 29,4%.

No Dia das Mães, o movimento foi semelhante. As compras pela internet cresceram 8,6%, enquanto o comércio de rua perdeu 2,6% de participação.

“Nossa percepção é que o consumidor está reduzindo sua intenção de compras em lojas de rua, pois a internet e os shoppings ficaram mais acessíveis e seguros ao longo do tempo”, avalia Lucas Dezordi, assessor econômico da Fecomércio-PR e professor de Economia da PUCPR.

Manter um ponto comercial ficou mais caro

A transformação no comportamento do consumidor ocorre ao mesmo tempo em que o custo de manter uma operação física também aumenta. Os preços de locação de imóveis comerciais subiram 8,91% em 2025, a maior alta da série histórica do Índice FipeZAP Comercial, iniciada em 2013.

O resultado foi registrado para salas e conjuntos comerciais de até 200 m². No mesmo ano, o índice mostrou alta nas dez cidades acompanhadas. Em Brasília, por exemplo, a alta acumulada foi de 18,80%; em Campinas, de 16,12%; e em Niterói, de 15,48%.

O custo do aluguel, porém, é apenas uma parte das despesas que permanecem mesmo quando o fluxo de clientes diminui. Folha de pagamento, energia elétrica, impostos, manutenção e estoque também pressionam o caixa das empresas.

É justamente essa estrutura de custos fixos que torna mais difícil a adaptação dos pequenos negócios ao novo ambiente de consumo. Quando o faturamento cai, as despesas não necessariamente acompanham a redução na mesma velocidade.

Famílias endividadas e juros altos pressionam o varejo

A queda mais acentuada no movimento das lojas ocorre em um momento em que os consumidores também enfrentam maior pressão sobre o orçamento. De acordo com levantamento feito pela Confederação Nacional do Comércio (CNC), 81,6% das famílias brasileiras estão endividadas.

O endividamento torna os consumidores mais seletivos na hora das compras e reduz o espaço disponível no orçamento para o consumo, principalmente para produtos considerados não essenciais.

“O comércio de rua enfrenta um triplo estrangulamento: queda da demanda, aumento dos custos operacionais e juros elevados. O consumidor está com o orçamento comprometido e o lojista enfrenta despesas cada vez maiores para manter a operação”, afirma Balotim.

Além da queda na demanda, os empresários precisam lidar com um ambiente de crédito restritivo. De acordo com dados do Banco Central, as taxas para capital de giro destinado a micro e pequenas empresas variam entre 23% e 26% ao ano, podendo superar 30% em operações de curto prazo ou sem garantias.

Segundo o especialista, o lojista é pressionado por duas frentes: o custo elevado dos juros, que reduz a rentabilidade da operação, e o aumento da inadimplência no varejo, que eleva a percepção de risco e torna os bancos mais restritivos na concessão de crédito.

Adaptação ao digital vira questão de sobrevivência

Apesar dos números, a mudança no comportamento do consumidor não representa o fim das lojas de rua, especialmente se os comerciantes buscarem novos canais de venda.

Foi o que aconteceu com a loja de móveis da família do comerciante Alisan Oliveira de Cardoso, de 33 anos. Com mais de 20 anos de atuação em um ponto comercial no bairro Sítio Cercado, em Curitiba, e uma clientela formada principalmente por indicações, o comerciante decidiu entrar no e-commerce como alternativa para ampliar as vendas.

“Já tinha uma boa venda, mas era muito de indicação. Com a internet, conseguimos alcançar novos clientes e dobrar o número de produtos vendidos”, conta. Nos últimos seis anos, após começar a vender on-line, as vendas do lojista cresceram 50%.

A mudança no comportamento do consumidor também obriga os comerciantes a repensar a função da loja física. Para Balotim, o estabelecimento que funciona apenas como um ponto de venda enfrentará dificuldades cada vez maiores para competir com o comércio eletrônico.

A tendência é de que as lojas físicas passem a combinar a venda presencial com canais digitais e outras funções, como pontos de retirada de compras on-line, espaços de experimentação, atendimento personalizado e relacionamento com os clientes.

Para o especialista, o comércio de rua precisa deixar de depender exclusivamente do fluxo espontâneo de consumidores e encontrar novas formas de gerar valor para o cliente.

O comércio de rua não desaparece, mas muda de função

A transformação do varejo não significa necessariamente o fim das lojas físicas. O que está em mudança é a função que elas desempenham na relação com o consumidor.

A loja tradicional, baseada apenas na exposição de produtos e na dependência do fluxo espontâneo de pessoas, enfrenta uma concorrência cada vez maior das plataformas digitais. Ao mesmo tempo, os estabelecimentos que conseguem integrar os canais físico e on-line podem transformar a presença física em uma vantagem competitiva.

Na avaliação de Balotim, o comércio de rua continuará existindo, mas precisará encontrar novas formas de gerar valor.

“O comércio de rua não vai morrer, mas o seu modelo de geração de valor mudou para sempre”, aponta o especialista.

 Thiago de Melo Furbino  

O Grupo Pernambucanas anunciou uma nova composição para sua liderança. Marcelo Pimentel assume a presidência executiva no lugar de Ricardo Doebeli, enquanto Carlos Henrique Bandeira de Mello Júnior, o Caique Mello, passa a presidir o Conselho de Administração. Na diretoria financeira, Ernane Abrahão será o novo CFO. O processo sucessório foi aprovado por unanimidade pelo Conselho e ocorre após uma etapa relevante de fortalecimento da governança, transformação operacional e reorganização da companhia iniciada em 2024.

A transição encerra um ciclo importante. Ricardo Doebeli e Mauricio Hasson deixam a empresa após contribuírem para a reconstrução da governança, a reestruturação da operação e a criação de uma base mais sólida para a continuidade do negócio. A partir de agora, a prioridade passa a ser converter essa estrutura em resultados mais consistentes, com maior eficiência operacional, recuperação da rentabilidade, disciplina financeira e melhor retorno sobre os investimentos realizados. Em um ambiente de varejo ainda pressionado pela volatilidade econômica, pelo consumo seletivo e pela necessidade de operar com maior produtividade, a mudança de liderança indica mais concentração na captura de valor.

Marcelo Pimentel chega com mais de três décadas de experiência no varejo e uma trajetória construída em operações de grande escala, gestão comercial, transformação de negócios e recuperação de resultados. Foi CEO do GPA entre 2022 e 2025, além de membro do Conselho da companhia e presidente do Conselho da Stix. Antes disso, comandou a Marisa, onde também atuou como vice-presidente de Operações, com responsabilidade sobre vendas, lojas, e-commerce, logística, expansão e manutenção. Sua carreira inclui ainda posições de liderança no Grupo DPSP e no Walmart Brasil, além de uma longa experiência internacional no Reino Unido, com passagens pela Asda, do Grupo Walmart, e pela Sainsbury’s.

O desafio será extrair mais valor de uma plataforma que reúne ativos relevantes. A companhia tem 118 anos de história, mais de 470 lojas, presença em mais de 320 cidades, atuação em 15 estados e no Distrito Federal e cerca de 11 mil colaboradores. Além do varejo de moda, beleza, lar e eletroportáteis, o grupo conta com a Pefisa, fintech responsável por soluções como conta digital, PIX, carteira digital, cartões, empréstimos e seguros. A nova gestão terá de avançar na integração desses ativos, fortalecer a experiência do cliente, aprimorar a gestão dos canais omnichannel, elevar a produtividade das operações e transformar capilaridade, marca e relacionamento em maior geração de caixa e retorno sustentável.

A chegada de Ernane Abrahão como CFO complementa esse desenho. Com mais de 30 anos de experiência em finanças corporativas, mercado de capitais, M&A e estrutura de capital, o executivo terá a missão de assegurar que disciplina financeira e excelência operacional avancem de forma integrada.

Thiago de Melo Furbino   • SeguindoFounder TL.MF. | No Varejo Podcast | Diretor da Abiacom | LinkedIn Top Voice | MBA Porto Business SchoolFounder TL.MF. | No Varejo Podcast | Diretor da Abiacom | LinkedIn Top Voice | MBA Porto Business School

Ter o “nome limpo” é apontado pelos consumidores como um dos bens mais preciosos

Redação  amanha

Mais da metade dos inadimplentes já escondeu alguma compra ou o valor real de uma dívida de seus familiares

Uma pesquisa realizada pela Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) e pelo SPC Brasil, em parceria com a Offerwise Pesquisas, revela que o consumidor brasileiro utiliza um crédito para quitar outro. De acordo com o levantamento, 81% dos consumidores nessa situação admitiram ter postergado dívidas no último ano, recorrendo a limites de cartão de crédito, cheque especial ou novos empréstimos para cobrir compromissos anteriores.

O estudo aponta que, para muitos, essa conduta virou rotina. Entre os que adiaram o pagamento de dívidas, 25% declararam fazer isso mensalmente para tentar manter o orçamento em dia, enquanto 37% utilizam a tática ocasionalmente em momentos de aperto e 19% somente em emergências extremas. O hábito joga o consumidor em um ciclo de endividamento de difícil saída, onde o crédito emergencial deixa de ser um suporte temporário e passa a integrar uma engrenagem contínua de inadimplência. Para o presidente da CNDL, José César da Costa, o cenário evidencia que o endividamento no país tem raízes estruturais ligadas à falta de letramento financeiro e ao desespero em tentar manter uma estabilidade artificial. “O consumidor, muitas vezes sufocado pela falta de liquidez imediata, busca paliativos que oferecem um alívio momentâneo”, analisa.

O levantamento também aponta que inadimplente brasileiro possui uma percepção de conhecimento sobre finanças muito superior à sua aplicação prática no dia a dia: 78% dos entrevistados classifiquem seu conhecimento financeiro entre regular e ótimo. Entre as principais barreiras para a adoção de métodos organizados, como planilhas ou cadernos de anotações, os entrevistados citam a falta de disciplina para controlar todos os gastos (20%), a desmotivação por não enxergarem resultados rápidos (15%) e a falsa crença de que a conta de cabeça é suficiente (15%).

O estudo revela um verdadeiro embate entre a disciplina e o esgotamento emocional ao se depararem com dívidas de difícil quitação: enquanto 50% afirmam manter a resiliência e cortar gastos não essenciais para sobreviver, 50% lidam de forma prejudicial com a situação. Mais da metade dos inadimplentes (54%) já escondeu alguma compra ou o valor real de uma dívida de seus familiares ou pessoas próximas por vergonha, sendo que 29% fazem essa omissão de forma frequente. Apesar dos riscos do cenário, o estudo mostra que a experiência da inadimplência gera um aprendizado reativo significativo. Ter o “nome limpo” é apontado por 79% dos consumidores como um dos bens mais preciosos da vida.

Reginaldo Nogueira| Ph.D. em Economia (University of Kent, Reino Unido) | Líder em Educação e Gestão | Professor e Palestrante em EconomiaDiretor Executivo do Ibmec | t, Reino Unido) | Líder em Educação e Gestão | Professor e Palestrante em Economia

O Distrito Federal segue na liderança, enquanto São Paulo, Rio Grande do Sul e Santa Catarina mantêm posições de destaque. Já estados do Norte e do Nordeste também registraram avanços importantes, embora a distância em relação aos mais ricos continue significativa.

O dado mostra que houve ganho de renda, mas também reforça que o desafio da convergência regional permanece.

Na sua opinião, quais políticas públicas ou mudanças econômicas seriam mais eficazes para garantir crescimento, e também reduzir essa diferença de renda entre os estados brasileiros?

Reginaldo Nogueira, o crescimento da renda é uma boa notícia, mas reduzir as desigualdades regionais exige mais do que transferências de renda. O desafio passa por aumentar a produtividade das regiões menos desenvolvidas, com investimentos consistentes em educação, infraestrutura, segurança jurídica e qualificação da mão de obra. Também é importante criar um ambiente que atraia investimentos privados e estimule a inovação local. No longo prazo, o desenvolvimento sustentável acontece quando os estados conseguem gerar empregos de maior valor agregado e ampliar sua competitividade, e não apenas elevar a renda no curto prazo.

 

 

Brasil tem 2º maior juro real do mundo; veja ranking

O Brasil passou a ocupar a segunda posição no ranking mundial de juros reais após o corte de 0,25 ponto percentual na taxa básica de juros pelo BC (Banco Central). O juro real brasileiro ficou em 9,33%, atrás apenas da Rússia, que lidera o levantamento com 9,67%, segundo ranking da MoneYou em parceria com a Lev Intelligence.

O Copom (Comitê de Política Monetária) do BC anunciou nesta quarta-feira (5) uma redução na taxa Selic, reduzindo os juros básicos brasileiros para 14% ao ano.

A mudança tira o Brasil da liderança do ranking, posição ocupada anteriormente, mas mantém o país entre as economias com os maiores juros reais do mundo.

Depois de Rússia e Brasil aparecem México, com juro real de 5,09%, e África do Sul, com 4,62%.

Veja ranking:

Já em relação a juros nominais, com o corte, o Brasil segue figurado em quarto lugar, atrás apenas da Turquia (37%), Argentina (29%), e Rússia (14,50%).

Segundo a MoneYou, o conflito entre Irã e Estados Unidos alterou as expectativas para a inflação global e levou autoridades monetárias a adotarem uma postura mais cautelosa, influenciando a configuração do ranking.

Folha de S.Paulo aponta que 82% das famílias brasileiras tinham algum tipo de dívida em julho, o maior patamar da série. Em junho, o índice era de 81,6%, segundo pesquisa da CNC. A pesquisa também mostra que, em média, 29,5% do orçamento das famílias está comprometido com dívidas, enquanto o tempo médio de comprometimento é de 7,2 meses.

 

Valor Econômico afirma que a economia brasileira caminha para uma desaceleração. O editorial destaca que juros altos, expansão do crédito caro e endividamento recorde, 84,9% das famílias de baixa renda, segundo a CNC, pressionam o consumo e afetam varejo, indústria e serviços. 

Com três meses do Desenrola 2.0, inadimplência geral recua para 29,8%, mas fatia de consumidores com mais da metade da renda comprometida aumentou

O percentual de famílias brasileiras com dívidas a vencer voltou a crescer e alcançou 82% em julho de 2026. O resultado representa um avanço de 0,4 ponto percentual frente a junho (81,6%) e de 3,5 pontos percentuais na comparação com julho de 2025 (78,5%), estabelecendo o sexto registro seguido de máxima na série histórica da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), apurada pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) e divulgada nesta quinta-feira (6).

Os dados apurados em julho oferecem um retrato do cenário financeiro das famílias ao fim dos primeiros 90 dias do Desenrola 2.0, programa de renegociação de dívidas do governo federal, disponibilizado em 5 de maio. Sob o efeito do incentivo à regularização de débitos, a taxa de inadimplência geral apresentou ligeira retração no mês, passando de 29,9% em junho para 29,8% em julho — nível inferior também ao registrado no mesmo período do ano anterior (30%). No entanto, o aumento do percentual de endividados e do comprometimento da renda preocupa.

O presidente do Sistema CNC-Sesc-Senac, José Roberto Tadros, comenta essa piora no índice e suas consequências no cenário econômico. “Completar seis meses seguidos de novos níveis recordes negativos no endividamento da população tem impactos que são sentidos em curto e médio prazo, não só no comércio”, avalia.

“Vemos sinais positivos de resiliência, seja pelo pagamento das dívidas com o programa Desenrola, seja com a massa de rendimentos e ocupação aumentando; porém, os números mostram que é preciso avançar em medidas que aliviem o bolso do trabalhador e, consequentemente, estimulem uma melhora do setor produtivo”, completa Tadros.

Apesar do recuo nas contas em atraso, a Peic sinaliza um ponto de pressão no orçamento doméstico: o aumento da parcela de consumidores com alto comprometimento financeiro. O percentual de famílias que têm mais de 50% dos seus rendimentos mensais comprometidos com o pagamento de dívidas subiu para 19% em julho, atingindo o maior nível desde março deste ano. Em média, os consumidores endividados estão vinculando 29,5% da sua renda mensal para honrar compromissos com credores.

Para o economista-chefe da CNC, Fabio Bentes, a redução da taxa Selic é um passo importante para melhorar gradualmente as condições de crédito, embora seus efeitos não sejam imediatos.

“A decisão de reduzir os juros básicos tende a contribuir para a diminuição do custo das novas operações de crédito e para a renegociação de dívidas em condições mais favoráveis. No entanto, o elevado comprometimento da renda mostra que a recuperação da capacidade de consumo das famílias será gradual. A continuidade do processo de flexibilização monetária, condicionada ao comportamento da inflação, poderá ajudar a aliviar o orçamento doméstico e reduzir a pressão financeira principalmente sobre as famílias de menor renda”, avalia.

Resultados positivos
Por outro lado, o levantamento da CNC aponta indicadores operacionais favoráveis no mês de julho. O tempo médio de atraso das contas registrou nova redução pelo terceiro mês consecutivo, caindo para 64,6 dias — o menor patamar verificado desde dezembro de 2025 (64,3 dias).

Adicionalmente, a fatia de inadimplentes com atrasos superiores a 90 dias recuou para 48,5%, menor proporção desde agosto de 2025, fator positivo por atenuar o peso dos juros recorrentes. No indicador subjetivo de percepção, 35% dos entrevistados declararam-se “pouco endividados” (diante de 34,2% em junho), enquanto os que se consideram “muito endividados” oscilaram de 17,2% para 17,1%.

Piora desproporcional na população mais pobre

A análise desagregada por faixas de rendimento revela uma assimetria no comportamento do crédito no País. Enquanto a inadimplência recuou em todos os estratos sociais com ganhos acima de três salários mínimos entre junho e julho, a população de menor renda concentrou a piora nos indicadores de atraso.

Entre as famílias que recebem até três salários mínimos, a proporção de endividados subiu para 84,9% em julho (ante 84,7% em junho e 81,2% em julho de 2025), maior do que o nível médio e recorde. Esse grupo foi o único a registrar aumento do percentual de contas em atraso no mês a mês, avançando de 38,3% para 38,5% (+0,2 p.p. no mês e +0,5 p.p. no ano).

Os consumidores com menor renda também lideram de forma isolada a alta da parcela de famílias que declararam não ter condições de quitar suas pendências financeiras. O indicador para quem ganha até três salários mínimos subiu de 17,6% em junho para 17,8% em julho. No indicador geral de insolvência, que engloba todas as faixas de renda, o percentual de famílias sem condições de pagar oscilou de 12,2% para 12,3% no mês, nível menos preocupante.

Em contrapartida, as famílias com renda acima de 10 salários mínimos registraram o maior aumento do volume de endividamento no ano (+4,1 p.p., atingindo 72% em julho), mas mantiveram trajetória de queda da inadimplência, reduzindo o percentual de contas em atraso de 15,4% em junho para 15,1% em julho.