Por Fernando Jasper / 06/02/2025
Lula e Haddad: sem perspectiva de novos ajustes nas contas públicas, país segue “desancorado”, diz Bradesco.
Terceiro maior banco do país, o Bradesco costuma ser comedido em suas análises sobre a economia. O tom dos relatórios e declarações à imprensa tende a ser sóbrio, cauteloso. Não é o caso, porém, do boletim em que o banco anunciou a revisão de suas projeções para a inflação e o Produto Interno Bruto (PIB), publicado na quarta-feira (5).
Desta vez, o texto do Departamento de Pesquisas e Estudos Econômicos (Depec) não faz rodeios. Já nos primeiros parágrafos, afirma que:
“Sem perspectiva de ajustes adicionais, o país segue desancorado, na essência do que o termo representa.”
Isso significa que os preços de ativos – câmbio, ações, juros futuros etc – “respondem substancialmente a cada nova informação do cenário”. Sobem e descem ao sabor do vento e das correntes. Uma notícia mais ou menos ruim já é capaz de mandar cotações lá para baixo. E o oposto.
Mais:
“Os próximos meses marcarão a pior combinação entre inflação e atividade dos últimos períodos.”
De acordo com o Bradesco, os índices de preços ainda responderão à desvalorização do real nos últimos meses, à inércia (ou seja, o efeito da inflação passada sobre os preços futuros) e “às surpresas com o crescimento”.
Por isso, o banco decidiu elevar sua projeção para a inflação de 2025, de 4,9% para 5,7%. Bem acima do IPCA medido no ano passado (4,8%) e do teto da meta perseguida pelo Banco Central (4,5%), e um pouco além da mediana das apostas do mercado (5,5%). Se confirmado, será o pior número desde 2022.
Ao mesmo tempo em que a inflação sobe, o PIB perde vigor. O Depec diz que os sinais de desaceleração se acumulam e o fazem “ganhar convicção no quadro de recessão na segunda metade do ano”. “Apenas a agropecuária apresentará resultados consistentes”, diz o relatório.
Daí que a expectativa para o crescimento do PIB foi reduzida de 2,2% para 1,9%. Bem menos que o resultado de 2024 (o dado oficial não saiu, mas o banco calcula algo próximo de 3,4%) e ligeiramente abaixo da mediana do mercado (2,1%). Seria o pior resultado desde 2020, primeiro ano da pandemia.
Os economistas do Bradesco acreditam que o país ainda cresce bem neste primeiro trimestre, graças à safra agrícola, mas desacelera em seguida e entra em recessão na segunda metade do ano.
Ou seja: aparentemente, o ciclo de aumento da taxa básica de juros (Selic) – que já chegou a 13,25% ao ano, após quatro reajustes seguidos – finalmente esfriará a economia.
Na avaliação do Depec, o juro alto vai prejudicar o investimento produtivo, que vem de forte aceleração em 2024. O consumo das famílias ainda terá o suporte da massa salarial, mas deve avançar menos por causa de aumento do desemprego e menor expansão do crédito.
O Bradesco acredita que a Selic ainda vai subir mais 2 pontos porcentuais, chegando a 15,25% em meados do ano, para depois recuar um pouco e fechar dezembro em 14,75%.
O aperto deve continuar fazendo efeito em 2026, ano de eleição presidencial. Nesse caso, o Depec até revisou um pouco para cima a projeção de crescimento do PIB, de 1% para 1,3%. Ainda assim, seria o mais fraco do atual mandato de Lula.
A previsão para a inflação no ano que vem, enquanto isso, passou de 3% para 3,4%. Apesar da revisão, continuaria sendo o menor índice em oito anos, caso o palpite se mostre certeiro.
(Para quem está chegando agora ao mundo das projeções econômicas, vale o aviso: elas estão sujeitas a erros, para mais e para menos. Um exemplo. Em sua última ata, ao comentar “sinais incipientes” de moderação no crescimento econômico, o Comitê de Política Monetária do Banco Central fez questão de notar: “No passado também houve dados que sugeriam desaceleração, percepção que foi revertida em meses subsequentes, refletindo apenas volatilidade nas séries, sem alteração na tendência de crescimento, que mostrou notável resiliência”. Feito o alerta, seguimos!
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