Pela 1ª vez, elas são maioria entre os brasil

eiros com o nome negativado; avanço reflete mudanças no protagonismo feminino na renda dos lares

Reprodução/Freepik (freepik.com)

Mais do que um dado financeiro, o crescimento da inadimplência feminina revela o peso das mulheres na sustentação econômica das famílias

Em dez anos, o rosto do endividamento no Brasil mudou. E a mudança diz muito mais sobre transformação social do que sobre comportamento financeiro. Pela primeira vez na série histórica do Mapa da Inadimplência da Serasa, as mulheres viraram maioria entre os brasileiros com o nome negativado: são 40,4 milhões em 2026, contra 27,7 milhões em 2016, um crescimento de 46% em uma década. A participação feminina subiu de 49,76% para 50,51%. A balança virou.

O Brasil tem hoje 81,7 milhões de negativados, alta de 38,1% nos últimos dez anos. Quase metade desse grupo, 48%, tem renda de até um salário mínimo. E 42% já estavam negativados há uma década, o que revela um problema estrutural de difícil saída para boa parte da população.

Mas o dado feminino não é mais um número nessa estatística. É um retrato de uma transformação silenciosa e profunda, que começa a ser lida com mais clareza pelos analistas, pelas instituições e, aos poucos, pelas tecnologias de crédito.

As mulheres viraram maioria entre os endividados e o motivo importa

O dado central não emerge do nada. Ele é resultado direto de uma mudança na estrutura dos lares brasileiros.

Segundo levantamento do Índice de Vulnerabilidade Financeira Familiar (IBRE) da Fundação Getúlio Vargas (FGV) com dados da PNAD (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) Contínua, as mulheres passaram a chefiar 51,7% dos lares brasileiros, o equivalente a 41,3 milhões de pessoas. Em 2012, essa proporção era bem menor: o crescimento foi de 87% em pouco mais de uma década. Ser referência financeira do lar significa responder por um conjunto maior de despesas. E, quando a renda não é suficiente para cobrir tudo, a dívida entra como solução de curto prazo.

Mas o dado de gênero carrega outras camadas. Entre as mulheres que chefiam lares, a taxa de participação no mercado de trabalho é de 22,6 pontos percentuais abaixo da dos homens que estão na mesma posição. O desemprego feminino é quase o dobro. A informalidade, maior: 40,3%. Mais da metade dessas mulheres é negra. E parte expressiva tem baixa escolaridade.

À frente de um negócio, as mulheres ganham, em média, 24% menos que os homens mesmo tendo, em geral, mais anos de estudo, segundo o Sebrae com base na PNAD Contínua. Mais responsabilidade, menos renda e crédito sempre um pouco mais difícil de acessar.

É nesse contexto, e não em “descontrole” ou “impulso de compra”, que se explica a virada nas estatísticas de inadimplência.

Na hora de priorizar as contas, escolha pagar primeiro aquelas que têm as taxas de juros maiores

Por trás do número: a mulher virou a provedora

A mulher chefe de família não é um perfil marginal. É a maioria dos lares brasileiros.

Ela acorda cedo, faz o café, leva os filhos para a escola, vai trabalhar, muitas vezes em mais de um emprego, sem carteira assinada, volta, faz o jantar, controla as contas e ainda tenta guardar alguma coisa para o mês seguinte. Quando o imprevisível acontece, uma doença, um conserto urgente, a perda de um cliente, o colchão financeiro raramente existe.

O resultado é que essa mulher, que sustenta a casa, também acaba sendo quem fica com o nome negativado quando os pagamentos não fecham. Não por descontrole. Por excesso de responsabilidade em um sistema que ainda não foi feito para ela.

E esse sistema tem um nome: o crédito tradicional costuma pedir holerite, contracheque e carteira assinada. Para quem vive de renda variável, faz o corre, vende por redes sociais ou cuida da família enquanto trabalha, o acesso ao  empréstimo pessoal quase sempre esbarra em portas fechadas. Nesses casos, um empréstimo pessoal na hora  certa com análise que considere a renda real pode ser a diferença entre resolver um imprevisto e ver a conta se acumular.

Marcello Casal Jr/Agência Brasil/Arquivo

O desafio não é apenas acessar crédito, mas construir um sistema capaz de reconhecer quem há muito tempo sustenta a economia das famílias brasileiras

A força do outro lado: quem mais reage

O dado vem acompanhado de um outro dado, menos comentado: a mulher inadimplente tende a buscar resolver o problema mais rápido do que os homens, segundo levantamento da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC). Ela pesquisa as condições, migra para modalidades de juro menor e renegocia com mais agilidade.

E vai além disso. O Brasil tem hoje 10,4 milhões de mulheres empreendedoras, o maior número da série histórica, um crescimento de 42% entre 2012 e 2024, de acordo com o Sebrae. Quase metade delas, 49%, é a principal fonte de renda do lar. E 73% são mães, o que confirma a jornada dupla ou tripla que define o dia a dia de boa parte dessas trabalhadoras.

Essas mulheres também inovam: 71% usam redes sociais e aplicativos para vender, contra 63% dos homens. Mas o acesso limitado ao crédito, incluindo o empréstimo pessoal, ainda é um dos principais obstáculos apontados por elas para crescer.

A virada, portanto, não é apenas nos números do endividamento. É também na capacidade de reação. A mulher que virou maioria nas dívidas é a mesma que mais corre atrás de sair delas.

A tecnologia que enxerga quem sempre sustentou a casa

Durante muito tempo, o crédito no Brasil foi construído para um perfil específico: emprego formal, holerite, conta corrente em banco tradicional. Quem não se encaixava nesse molde ficava de fora, mesmo tendo renda, pagando as contas em dia e sustentando uma família inteira.

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