Publicado em: 06/08/2025

Itaú Unibanco, Bradesco e Santander Brasil tiveram um lucro combinado de R$ 21,234 bilhões no segundo trimestre, uma alta de 17,2% na comparação com o mesmo período do ano passado. De forma geral, os dados de crédito e inadimplência vieram um pouco melhores do que o esperado pelos analistas e os executivos não mostraram grande preocupação com o cenário macroeconômico, embora reconheçam que os juros elevados vão pesar sobre o crédito.

Os grandes bancos privados não esperam impactos significativos, em suas carteiras, em função do “tarifaço” de Donald Trump contra o Brasil, e a crise do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF), que afetou a linha de risco sacado em junho, pode ter alguma reversão nos próximos meses.

Em momentos distintos, cada um dos bancos mostrou tendências um pouco diferentes no crédito. Itaú segue com lucro recorde e rentabilidade bastante elevada, e seu portfólio de crédito cresceu 7,3% em um ano (o “guidance” vai de crescimento de 4,5% a 8,5%).

Bradesco, que vem em uma toada de recuperação, após momentos difíceis com a piora na inadimplência em anos anteriores, mostrou expansão de 11,7% na carteira, mas o guidance (de 4% a 8%) indica que deve haver desaceleração no restante do ano. E Santander foi o que se revelou mais cauteloso. O banco não tem guidance e a carteira teve expansão anual de apenas 1,5%.

Em termos de inadimplência, no Itaú ela foi de 2,3% em junho, de 2,3% em março e 2,7% em junho do ano passado. No Bradesco, ficou em 4,1%, de também 4,1% três meses antes e 4,3% há um ano. E no Santander, atingiu 3,1%, ante 3,3% e 3,2%, na mesma base de comparação.

O CEO do Itaú, Milton Maluhy, foi questionado se espera uma deterioração do cenário macroeconômico no segundo semestre, mas afirmou que não vê grandes mudanças e que está muito confortável com a qualidade dos ativos que o Itaú tem gerado. De qualquer forma, disse que a taxa de juros “bastante restritiva” deve impactar a atividade ao longo do segundo semestre.

“Olhando essa perspectiva e olhando todos os desafios que a gente tem, macro e micro, não só no Brasil, como em outras geografias, com o nível de juros que a gente está observando, é difícil imaginar que vai se abrir uma janela para equity no segundo semestre”, comentou Maluhy, quando se referia ao mercado de emissão de ações (ECM).

Já o CEO do Bradesco, Marcelo Noronha, disse que o banco deve começar a acelerar no consignado privado nos próximos meses, mas que a carteira geral vai desacelerar e convergir para o guidance. “Estamos muito animados com o que estamos fazendo no banco, mas em relação à economia temos cautela, mantemos o pé no chão”, comentou.

Mais conservador, o CEO do Santander, Mario Leão, acredita que a Selic vai continuar elevada por algum tempo, o que torna mais difícil o objetivo de alcançar um retorno sobre o patrimônio líquido (ROE) de 20% em alguns anos. “A gente sabe que ela deve continuar em dois dígitos por alguns anos. Não é bom para a atividade econômica, para os portfólios de crédito e crescimento do país”, disse. “Não somos imunes ao cenário macro, então estamos mais conservadores, prudentes”, comentou em outro momento.

Fonte: Valor Econômico

  • 07/08/2025 – site CNC

Percentual de brasileiros que não têm condições de pagar as dívidas é o maior de 2025; famílias de menor renda e mulheres são as mais afetadas

A inadimplência do consumidor atingiu o maior patamar desde setembro de 2023, chegando a 30,2% da população brasileira. É o que mostra a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), realizada mensalmente pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC). O aumento do índice em julho foi de 0,5 ponto percentual, acompanhado pelo crescimento da quantidade de famílias que declararam não ter condições de pagar as dívidas, percentual que chegou a 12,7% (+0,2 p.p.). Desde dezembro de 2024, essa fatia não era tão grande.

O levantamento também mostrou que o endividamento ficou praticamente estável, em 78,5%, com o avanço de 0,1 p.p. frente ao mês passado. Ainda foi observado que a tendência de redução dos prazos firmados para os pagamentos se manteve pelo sétimo mês consecutivo, com as dívidas superiores a um ano alcançando 31,5%. Em contrapartida, o comprometimento em curto prazo cresceu.

Tais resultados emitem um alerta, especialmente, de que as famílias de rendas baixa e média e o público feminino têm passado por maiores dificuldades, uma vez que eles apresentaram piora tanto no endividamento quanto na inadimplência. Um ano atrás, a inadimplência era de 28,8%, com 11,9% dos entrevistados declarando não ter condições de pagar.

“O aumento do número de famílias que já não conseguem pagar suas dívidas e a estagnação do endividamento indicam que os brasileiros estão no limite de sua capacidade de contrair novas dívidas. A redução dos prazos mostra um uso cada vez mais defensivo do crédito. Esse comportamento exige atenção das autoridades para que se evite uma estagnação no comércio e nos serviços”, afirma o presidente do Sistema CNC-Sesc-Senac, José Roberto Tadros.

Contas em atraso por mais tempo

Segundo o levantamento, o tempo de inadimplência aumentou em julho, com 47,5% dos consumidores com contas em atraso estando nesta situação há mais de 90 dias. Ainda assim, houve melhora do percentual de famílias que comprometem mais da metade da renda com as dívidas, de 19,2% para 18,9% no mês. Outra boa notícia é que o comprometimento médio dos ganhos familiares caiu para 29,4%.

O cartão de crédito segue como o principal meio de endividamento (84,5%), embora tenha recuado 1,5 ponto percentual, na comparação com 12 meses atrás. Já os carnês continuam ganhando espaço, sendo a segunda modalidade mais utilizada, com 16,8% e destaque frente ao crédito pessoal, que aparece com 10,6%.

“Notamos as famílias brasileiras cada vez mais conscientes com relação ao crédito. Prova disso é a redução do comprometimento médio da renda e da parcela de famílias com mais da metade dos ganhos consumidos pelas dívidas. O recuo do cartão de crédito e avanço dos carnês sugerem uma busca por modalidades menos onerosas e com maior previsibilidade de pagamento”, analisa o economista-chefe da CNC, Fabio Bentes.

Perfil dos endividados

A parcela da população com faixa de renda entre 3 e 5 salários mínimos foi a que apresentou maior aumento do endividamento e da inadimplência. Em um ano, o número de endividados entre este público cresceu 1,7 ponto percentual (81,3%), e o de inadimplentes subiu 1,6 p.p. (28,7%). Já entre os que afirmam não ter condições de pagar as dívidas, o aumento foi de 2 p.p. (12%).

Na análise envolvendo os gêneros, o endividamento das mulheres caiu 0,2 p.p. (79,1%) frente a julho de 2024, embora tenha aumentado 0,9 p.p. em um mês. A inadimplência delas aumentou 1,4 p.p. (30,7%), com 12,4% sem condições de pagar (+0,3 p.p. na variação anual). Em contrapartida, é maior o percentual de homens sem ter como pagar as contas atrasadas, que chegou a 12,8%, 1,1 p.p. à frente do patamar de um ano atrás.

Perspectiva para os próximos meses

Mesmo com os indicadores elevados, a CNC projeta que o endividamento deve começar a desacelerar nos próximos meses. A expectativa é que a combinação de juros elevados e aumento da inadimplência leve as famílias a um comportamento mais cauteloso com o crédito. Ainda assim, a entidade prevê que 2025 deve terminar com níveis mais altos de endividamento (+1,1 p.p.) e inadimplência (+1,4 p.p.) em comparação ao fim de 2024.